17 de junho de 2017

Sem Fundamento



O fundamentalismo tem avançado por sobre o mundo, lançando suas labaredas por cima de tudo quanto com que cruza o caminho. Cidades como Paris, Londres ou Nova York poderiam ser facilmente apresentadas como lugares de tolerância e civilidade, mas têm se tornado incrivelmente lugares de medo, fobia e sectarismo. Países como Síria, Sudão do Sul ou Afeganistão envergonham a humanidade diante de si mesma com suas tragédias humanas que parecem condenadas à eternidade. No Brasil, também, o clima é azedo; ou melhor, pesado e ácido, patrocinado por uma divisão de origens artificiosas, que, longe de encaminhar rumo a uma solução, nos leva a todos, assim como caminha o mundo, perigosamente, sempre em direção à borda da cratera, de onde o enxofre verte e as línguas de fogo se erguem terríficas e ameaçadoras. O desolador é que o oxigênio que alimenta o fogaréu, e sem o qual o enleio não existiria, é o próprio homem em sua perene limitação exegética.

De modo resumido, vemo-nos, na Terra de Santa Cruz, diante de três caminhos cuja natureza a própria história registrou pavorosa. Sem sequer citar o problema dos –ismos, diremos que hoje três grupos se enfrentam nestas bandas pela hegemonia e implantação de sua solução. São eles, os militaristas, defensores de algum nível de intervenção militar conservadora; depois, uma orbe adepta do modelo econômico que, sem invocar os primores da nobre arte, deu certo, e que se mescla a ondas de defensores dos valores universais, transcendentes, ambas as correntes nunca largando de fora, claro, a sempre estimada ignorância; e, por fim, os esquerdistas revolucionários, sempre agarrados a uma agenda sonhática e que qualquer bom-senso sabe, impraticável, sobretudo porque sombreada pelo totalitarismo. Na verdade, tudo isso junto constitui um enorme “samba do crioulo doido” ideologizado, que torna, felizmente, mais difícil uma solução drástica a curto prazo, mas, no mínimo, nos condena um tipo cretino e indigesto de disputatio ad infinitum.

Independentemente de aonde isso tudo levará o país, e o mundo, em termos de uma injunção inexorável, é preciso reconhecer a necessidade de tentar mudar essa situação. É, porém, difícil encontrar uma solução, uma vez que nem sempre, ou quase nunca, os ideais que movem os que se engalfinham de modo mais direto nessa querela, insuflando os mais simplórios, são tão sonháticos assim. Na verdade, há muito mais interesse pessoal e de grupo em jogo do que propriamente sonho. Este se reserva meticulosamente aos tolos e enganados.

A escola poderia ser a principal esperança de solução. Mas isso é crença de bobos. Mais que de qualquer outro lugar, é de lá que fervilha o magma do problema. É lá onde irrompem todos aqueles -ismos supracitados, mergulhando as pessoas em seitas “religiosas”, cujos santos só podem ser humanos, e soçobrando o genuíno sonho de cada homem e de cada mulher comum de viver uma vida simples, sem grandes sobressaltos e sem o imperativo de refundar a terra. É então quando o sonho de escapar ao pesadelo vai sendo amputado.

Talvez não devêssemos estar assim. A novidade da democracia surgiu como uma esperança de dar cabo ao problema, combatendo as injustiças e instaurando uma realidade capaz de inserir a todos nos ganhos civilizatórios. Era ela de todos e para todos, mas alguns se aperceberam de que podiam encontrar meios de dominação justamente se utilizando do novo instrumento. Em jogadas sofisticadas e lances cuidadosamente forjados, canalizaram a força da neófita contra si mesma. O efeito foi devastador.

Na cabeça de muitos, por exemplo, os coletivos populares tornaram-se a suprema expressão de um modelo intrinsicamente maximizado, cuja característica central é encerrar um caminho que já nasce, em alguma medida, trilhado na substância de si mesmo. O estímulo ao fatiamento tomou ares e dimensões superlativas, embora muitos de seus adeptos mais prosaicos sequer o percebam. Óbvio que uma divisão irrefletida ou irresponsável pode gerar esfacelamento e perda de unidade que ao cabo pode revelar-se perigosíssima. Não é possível esticar uma tenda e decidir tudo em assembleia, ainda que o sonho seja atraente. Isso torna a burocracia insuportável, transforma o tempo em mero detalhe, contamina o ambiente e instala a dissensão como regra. Em suma, é uma bela receita para o caos. Depois de adubar, o próprio e seus pares, a terra, não dá para considerar sincera a antinômica reclamação de liquidez que Bauman leva a efeito.

O Brasil, assim, tem flertado com o perigo. A sociedade está virando uma malha disforme, contradita e perigosamente autoritária. A alguma altura a balbúrdia pode exigir solução.

Seria bom que a estupidez fosse relegada e as ideias e práticas equivocadas reavaliadas. Se continuarmos nessa toada, o futuro das gerações torna-se, ainda mais que o aceitável, um cultivar temerário.

Não dá para apostar nesse esquema sombrio. Um construto que, no fim, não serve a ninguém, nem a si mesmo. Um fundamentalismo, enfim, baseado em coisas que, como deveríamos saber, não têm fundamento.



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