5 de fevereiro de 2017

Esquerda e Direita


Nos últimos tempos, intensificou-se o debate acerca da política no país, o que, apesar de alguns radicalismos, soa positivo. Os políticos, cada dia mais acossados pelo povo - este historicamente mais tangido que ouvido, estão louquinhos para pôr panos quentes na profusão que ameaça seu tranquilo e duradouro reinado em berço esplêndido. Volta e meia estão fugindo dos limites dos rótulos de direitista ou esquerdista, por pleno instinto de sobrevivência, ou cafajestagem mesmo.

Veem-se, também, com certa frequência, almas se declarando isso, aquilo, aquilo outro, mas, não raro, agindo como coisa diversa, sem conexão com as linhas que propalam defender.

Este texto, por sua vez, nem de longe pretende aprofundar o debate sobre posições, fluidas ou dogmáticas, de parte a parte, visto ser algo intrincado e, obviamente, capaz de impor um trabalho de elevada dificuldade. Visa, apenas, a auxiliar e ajudar no clarificar de questões simples que, por vezes, passam batidas a muitos dos contendores. Há gente defendendo o que não defende, muitas vezes sem ter noção do que sejam os corpos de ideias que sustentam cada lado do embate. Naturalmente, quase nenhum aspecto pode ser imputado de modo absoluto a uma orientação política, sem que algo que a componha surja em certa medida n’outras correntes de pensamento.

Contudo, simplificando, pela necessidade evidente, citaremos as tendências do que se convencionou chamar direita e esquerda na política mundial. Sabemos que são comuns variações no entendimento dos conceitos em diferentes países, e que aquilo a que se pode, por exemplo, chamar liberal em dado contexto, talvez não o seja em outro. Aliás, a coisa é tão complicada que o sujeito pode acusar um liberal de ser direitista numa hora, e, minutos depois, um esquerdista de ser a mesma coisa.

Portanto, buscando apenas orientação geral, e baseando-se no que é o mais comum e usual, elencaremos abaixo as principais tendências com o que se identificam direitistas e esquerdistas. Leia com atenção, depois procure aprofundar seus conhecimentos a respeito, para não virar massa de manobra na mão dos malandros de plantão, que defendem os próprios interesses e os de seus grupos, dizendo defender, quiçá, o mundo inteiro. Desconfie, por exemplo, de quem defende demais um político qualquer, sobretudo em se tratando desses tipos que temos aqui pelo Brasil. Guie-se pelo corpo de ideias e vote sempre mais consciente, tendo a certeza de que, quando você vota em um candidato a vereador, a prefeito, a presidente, ou o que for, está fortalecendo a causa de um dos dois lados e moldando o mundo. Não trabalhe contra o que acredita. É o seu mínimo direito. E lembre-se que quanto mais forte, mais difícil será combater o prospecto. Vote para ajudar a construir o que deseja. Veja o que lhe interessa e vote pelas causas que defende. Essa história de votar em pessoas não é a melhor escolha; pelo menos não, em um primeiro momento. Escolha antes as ideias que lhe servem, depois, sim, escolha quem acredita pode defendê-las.

Importante: no Brasil, não há exatamente partidos direitistas, no máximo, centro-direitistas; desenvolveu-se por aqui uma atmosfera cultural em que os políticos têm deslavada vergonha de se assumir como tal, embora aqui e acolá defendam certas ideias de direita. Partidos como PCdoB, PSDB, PT, REDE, PSOL, PCO, PDT, PV, etc. são, de um modo ou de outro identificados com a esquerda política. Partidos como PMDB não são, no fundo, muito mais que gente interessada em grana e poder; partidos como o NOVO parecem ou prometem ter um raro alto nível, mas têm vergonha de dizer claramente de que lado estão, o que em si já é um mau começo, com jeito de malandragem brasileira. Em suma, de um ou de outro jeito, você vai ter que identificar quais partidos, dos que temos por aí, se aproximam mais do que você espera de um partido político.

Abaixo, portanto, sem preocupação com ordenamento, conforme vem à mente, algumas das principais bandeiras (são muitas mais, pois se tratam de visões de mundo diferentes) defendidas com afinco, e, muitas vezes, cegueira, por esquerdistas e direitistas, aqui e mundo afora. Não comentaremos subdivisões como as que definem extrema esquerda ou extrema direita, problemas de liberalismo, anarquismo, entre outras tantas nuances e definições.


Esquerda
Direita
Prega a revolução e a mudança da ordem vigente, por meio das armas ou, o mais comum atualmente, por meio da ação ideológica;
Defende o conservadorismo e a manutenção da ordem consagrada pelos costumes; aceita mudanças prudentes, que protejam as pessoas do perigo do estado despótico;
Defende o Estado forte, controlando com mão pesada, praticamente todas as áreas (educação, saúde, segurança, etc.), e buscando a “sociedade ideal”;
Defende certa soberania do indivíduo e a necessidade de uma iniciativa privada forte e empreendedora no país, limitando o Estado ao essencial;
Prega que o Estado é responsável por beneficiar e cuidar das pessoas, sobretudo das menos privilegiadas;
Entende que o Estado, na verdade, tira das pessoas, para poder existir, dissipando os recursos coletados, com desperdício, corrupção, ineficiência e descaso;
É crítica ao capitalismo, que considera deletério e injusto; almeja a uma sociedade igualitária, em que, entre outras coisas, o governo redistribui as riquezas produzidas, independentemente de quem contribui mais ou menos para isso;
Defende o capitalismo, por entender que é o único sistema econômico natural; a produção de riquezas melhora a vida de todos, porém não extingue as desigualdades, uma vez que cada pessoa tem talentos e se dedica ao trabalho de modo diferente;
É contra a propriedade privada;
Defende o direito à propriedade;
Prega o multiculturalismo;
Defende a autodeterminação dos povos e aproxima-se do nacionalismo;
É contra o porte livre de armas para os cidadãos;
É a favor do direito ao porte de arma, para defesa, pelo indivíduo;
Condena a excessiva moral e defende o relativismo, o que geralmente conduz à promiscuidade e ameaça os mais frágeis;
Defende a moral e os costumes tradicionais, às vezes, como “preço a pagar” por uma sociedade sadia;
Almeja ao “amor livre”;
Defende com moderação a castidade e o sexo no casamento;
É a favor do aborto;
É contra o aborto;
É a favor do uso recreativo e da descriminalização das drogas, como forma de combater a violência e o banditismo;
Condena o uso e a liberação das drogas, pois entende que isso corrompe os homens e piora a sociedade;
Cultiva o ateísmo e o agnosticismo;
Defende a religião;
Promove suas causas e se diz defensora das minorias e dos que entende perseguidos, como negros, mulheres, drogados, LGBTs, animais, etc.
Acredita em uma ordem natural divina e imutável, que rege a vida e que permite a todo homem pleno das faculdades dignificar-se com o próprio esforço;
Defende o feminismo e a igualdade constituída entre homens e mulheres;
É contrário ao movimento feminista e vê a mulher como pedra angular da família;
Defende o ecologismo e as práticas de vida natural, embora não prescinda dos avanços científicos e tecnológicos que, para existir, não raro, agridem o meio ambiente;
Não tem preocupações exageradas com ecologia, pensando antes na produção de alimentos e riqueza em grande escala;
É a favor de cotas raciais, sociais, etc. como forma de reparar injustiças históricas;
É contra cotas, por estimularem os homens à fraqueza e à mentira para se beneficiar, e defende o mérito como maior estímulo para o crescimento humano;
É a favor de taxar ou abolir o direito à herança;
Defende o direito à herança;
Vê a lei como ferramenta para a revolução;
Vê a lei basicamente como promotora de justiça;
É a favor da criação e do incentivo ao sindicalismo, ao cooperativismo e ao fortalecimento de movimentos sociais, em suas múltiplas extensões e formatos;
É a favor de diminuir o Estado e o número de políticos de toda ordem, além de focar na família tradicional como associação nuclear e motriz da sociedade;
Defende a criação de leis e dispositivos, como lei da palmada, lei do feminicídio, lei Maria da Penha, etc., para defender grupos específicos;
Acredita que apenas leis duras, justas e efetivas são o suficiente para melhorar a proteção à sociedade e punir quem comete delitos;
Vê nas prisões um lugar de punição, mas que exige ressocialização e educação para presos;
Vê a prisão, antes de tudo, como lugar de punição a infratores, rígido para ser eficaz, e reservando previamente à família e à escola o esforço e o dever de educar, pois o que é tudo não é nada;
É a favor do que se convencionou chamar “politicamente correto”;
É basicamente contra os exageros do “politicamente correto”;
Defende a reforma agrária, a agricultura familiar e é crítica ao agronegócio;
Reconhece o agronegócio, como forma eficiente de produzir alimentos em grande escala e a preços mais acessíveis;
Defende uma “ideologia para viver”;
Rechaça a ideologia, vista como utopia irrealizável e de tendências autoritárias;
Tem como cor símbolo o tradicional vermelho, depois o verde;
Tem como cores símbolo o azul e o branco;

Veja, portanto, com qual coluna, se com a da esquerda ou a da direita, você se identifica mais, e trabalhe, e vote, pelas ideias que defende, com o cuidado de não se deixar enganar pelos infiltrados dos políticos e dos partidos políticos, ou pelos que apenas estão defendendo o seu lado na história, e que querem manter você tanto mais confuso, ou no mais completo e conveniente obscurantismo.

E não se esqueça: não acredite de pronto quando um sujeito se disser esquerdista ou direitista; muitos destes são contraditórios, tanto no campo das ideias como no confronto destas com seus atos; além de tudo, muitos não conseguiram ainda compreender no fundo o que é ser um autêntico direitista ou esquerdista.

E não esqueça: quando você escolhe um lado por alguns motivos, o resto dos motivos vêm junto.


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