13 de novembro de 2011

Diálogos memoráveis – parte 1

Algumas palavras para iniciar

O western, definitivamente, não parece ser um gênero para a nova geração. Algo fácil de ser observado é o domínio de pessoas de mais idade, ou, no mínimo, com maior maturidade intelectual, entre aqueles que
gostam desse tipo de filme, notadamente o de linha americana. Dotadas de um notável senso prático acerca da realidade, e, muitas vezes, com pouca propensão a divagações pelo ficcionismo romântico ou futurístico, e, a despeito do deslocamento espaço-temporal do gênero, essas pessoas encontram nele uma interpretação seca e impiedosa dos fatos que regem o embate social. Quando falo, acima, de maturidade intelectual previno para que não se a confunda com qualidade de estudos formais, por se tratar, na verdade, de  certo tipo de amadurecimento calejado, com relevante aporte na experiência, a aproximar-se, para precisar, de certos aspectos postulados pela doutrina empiriocriticista.

Motivos, pois, para estimar este gênero peculiar, capaz de falar, de modo aparentemente simplista sobre coisas complexas, portanto, sem grande esforço retórico e sem necessidade de subversões drásticas da estrutura clássica da narrativa ou da própria linguagem cinematográfica, não faltam. Capaz de falar ao homem simples e rude quanto com o homem instruído, o gênero afasta-se, entretanto, da linguagem moderna, recoberta pela tibieza e pela desintegração social características do modus vivendi cosmopolita e citadino em voga. É aqui, então, que o homem moderno afasta-se enquanto classe de modo peremptório do que, para ele, não o representa enquanto ser histórico.

Não é, assim, o western, uma obra vazia de significado e por parecer isso mesmo aos precipitados,  priva-os da compreensão de certos aspectos da natureza humana. Torna-se, ao contrário, para quem sabe aproveitar-lhe, auxílio ao entendimento de intrincados processos sociais e humanos, como se o inserisse no tempo e no espaço diegéticos, para transpô-lo à própria realidade. Torna-se, ainda, é forçoso admitir, uma temeridade à mão daqueles que não estão aptos a compreender-lhe com a acuidade e a reserva que se impõe. Ou, ainda, impropriamente abjetos àqueles sensíveis em demasia às agruras da verdadeira dimensão da existência humana.

Nesta série que ora inicio, escolho um aspecto bem pontual dessas peças, e que, em certa medida, confere-lhes a maturidade necessária e assegura ao gênero vitalidade que praticamente o sustenta. Algo que os amantes do verdadeiro cinema não dispensam quando querem se divertir sem abrir mão da qualidade. São os diálogos, que, no caso do western, soam, por vezes, atemorizantes, mas que, sem dúvida, retratam um mundo onde quem sempre deu as cartas foram a força e o poder, transmutados em qualquer natureza que seja, mas sempre capazes de preservar praticamente intactas as estruturas sociais e políticas básicas em todos os cantos do planeta.

Sem querer ser ainda mais enfadonho na exposição, passarei doravante a postar, retornando vez por outra, diálogos afiados como lâmina, sem concentrar-me numa direção apenas e sem manter-me meticuloso na escolha. Tentando, enfim, oferecer apenas um pouco de diversão fluida ao leitor, especialmente ao que já superou a autoafirmação Lebowskiana e embrenhou-se pela apocalíptica mecânica das laranjas.

Comecemos, pois, de fato, nossa série, que se inicia com trechos apanhados a dois filmes produzidos em território americano e um na Europa.


Unforgiven (1992):

Após William Munny e Kid assassinarem friamente os vaqueiros que haviam cortado o rosto de uma prostituta, ambos ficam a esperar o pagamento da recompensa oferecida pelas meretrizes, enquanto travam o seguinte diálogo (trecho):


(…)
Kid:    Ei, Will...
WM:  Sim.
Kid:    Ele foi o primeiro.
WMPrimeiro o quê?
Kid:    O primeiro que eu matei.
(...)
WM:  Hoje você matou pra valer.
Kid:    É.
(...)
Kid:  Santo Deus! Não parece verdade. Ele nunca mais vai respirar. Está morto. O outro também. Só porque alguém puxou o gatilho.
WM: Matar um homem é algo infernal. Você tira tudo que ele tem e o que poderia ter um dia.
Kid:   É... Acho que mereceram.
WM: Nós todos merecemos.
(...)

Neste outro trecho, William Munny faz uma descrição fria e precisa do seu temperamento, além de uma autoimolação quando encontra o xerife da cidade, Pequeno Bill, que, com crueldade, matara seu amigo Ned.

(...)
PB:     Você é um covarde desgraçado. Atirou num homem desarmado.
WM:  Ele devia ter se armado ao resolver decorar o bar com meu amigo.
PB:     Você é William Munny, do Missouri. Matador de mulheres e crianças.
WM: Isso mesmo. Já matei mulheres e crianças. Já matei quase tudo que anda ou rasteja. Estou aqui para matar você, Pequeno Bill. Pelo que fez com o Ned.
(...)

Esse texto, devidamente contextualizado, e nas mãos de atores do porte de Gene Hackman e, em especial, de Clint Eastwood toma uma força expressiva extraordinária.


Lawman (1971):

Lawman é um trágico filme, que faz uma análise dos limites da lei e de suas contradições. O mesmo Estado que cria leis e proíbe matar é responsável por grandes, na verdade, as maiores, matanças. Neste trecho de diálogo, travado entre o xerife durão de Bannock, Jared Maddox, e Cotton Ryan, xerife de Sabbath, a constatação de que essa mesma lei está quase sempre a serviço dos detentores do poder.
Após Maddox pedir a Ryan a prisão dos responsáveis por arruaças e por uma morte na cidade de Bannock, inicia-se o seguinte diálogo (trecho):

(...)
CR: Tem os mandados?
JM: Arrumo, se precisar.
CR: Não vai conseguir com ninguém deste território.
JM: Tenho a jurisdição.
CR: Sim. Mas você não terá razão para obter os papeis de mim. Nunca ninguém teve.
(...)
CR: Veja esta cidade. Bonita e sossegada. Boa cidade para se morar. Não tem rodoviária, nem escavações nos morros. Nenhuma razão para engordar. Comem porque Vincent Bronson põe o pão na mesa deles. É o dono da cidade. É o dono do condado. Os homens dessa lista são protegidos dele. Eu não posso ir contra ele.
JM: É o responsável pela lei.
CR: (risos) Não sou responsável por nada. Me sento lá porque Bronson mandou. Sou comprado, Maddox.
JM: Você leva os recados, não?... Ou levo esses homens comigo ou os mato onde estiverem. Eles têm até o meio dia de amanhã. Diga a eles.
(...)


All'ombra di una colt (1965):

O eurowestern também é recheado de grandes diálogos e frases especialmente cheias de humor. Neste trecho de All’ombra di una colt, Steve negocia a compra da melhor e mais desejada, e portanto, perigosa, propriedade do vale com o velho Williams. Decidido a largar a antiga profissão e cuidar da terra, ele resolve enterrar sua arma a um canto do terreiro, quando o velho Williams, intrigado, o indaga (trecho):

(...)
W: Me diga: que tipo de plantação é essa? Nunca vi ninguém plantar armas.
S: Eu espero não precisar usá-las por aqui... Se alguma planta começar a crescer, corte pela raiz.
(...)

Caro amigo leitor, poderíamos, mas nos furtamos de colocar vídeos com os trechos em questão para sua melhor apreciação. O fazemos para não estragar, se for o caso, toda a surpresa de quem ainda não assistiu a esses filmes, que falam sobre como o mal está entranhado em um mundo violento, sujo e hipócrita. Ou melhor: um mundo maravilhoso, mas que muitos insistem em aviltar.

Bem, pessoal, paramos um pouco, pois, por aqui, mas, em outros momentos, estaremos dando continuidade à série, postando mais trechos interessantes de filmes western.

Abraço!


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